segunda-feira, 7 de maio de 2012

AVESSO


Avesso



Avesso é a parte oposta ao lado direito, ao lado pré estabelecido como principal. Parece-me que bastidores são o avesso de um espetáculo, de um palco, de uma costura ou um bordado...



Comumente observo os avessos dos tecidos para roupa do vestuário ou de cama, ou de mesa. Nas confecções o avesso é o lado escondido, o lado da trama, da tecelagem do bordado. O inverso do lado comumente dito de “direito”, sugestivo de que avesso é o lado errado, o feio, o escondivel.



Particularmente entendo que avesso é um documentário da verdadeira face de uma história, de uma essência, de um trabalho. Coisas têm avesso, pessoas, bichos, árvores. Tudo tem avesso. É no avesso que se identifica a realeza das minúcias de uma trama, o passo a passo da composição do roteiro do “direito”.



Avesso é um mundo condenado para permanecer oculto, fora de cena, calado, quieto. Um personagem de total beleza ímpar. Uma indiscutível nua verdade embutida pelo desprezo, escondida por hipocrisia.



Verdades me aguçam a fazer justas solenidades de reconhecimento, de forma que coroo o avesso, tranquila e segura, com base em meu critério pessoal, intelectual e filosófico. Elejo o avesso como direito, como público, como tese, documento ocular que testemunha linda nudez que definitivamente não corresponde ao errado.



Descobri tantos avessos belíssimos, como por exemplo, o avesso de mãe.

O avesso de mãe é inusitado modelo de benevolência. Tipo riacho de abundante bálsamo incentivador para a construção do bem. Avesso maternal é um aparelho musical emanando cânticos, ecoando flautas e canto de passarinhos; Um horizonte onde serena o olho do sol, onde fulgura o amor na resplandescência do tacho de reluzente ouro do arco-íris após a densa cortina de chuva; imenso jardim florido onde vadia cheirosa e fresca brisa coreografando revoadas de coloridas borboletas.



Avesso de mãe é celeste. Aconchegantes quartos lunares forrados de estrelas, e perfumados travesseiros florais tecidos de verde esperança. Avesso de mãe tem caminhos limpos, límpidos lagos azul e fartura de pomares maduros.



Penso que meu avesso é pespontado de mentira. Longos fios de cores intensas e quentes saltam e, sem constrangimento, invadem o lado direito para exercer a liberdade de expressão, hastear bandeira de puro sentimento, declaração de incondicional sentimento por meus filhos.



Mães mentem, frisam detalhes de seus filhos, tipo olhos, corpo, lábios, cabelos, afirmando que são os mais belos do mundo. Inocente afirmação de que seus filhos são os seres mais lindos do mundo. Do mundo!



Pensando bem, isto é a mais pura verdade maternal, afinal, o mundo de mãe é tão resumidamente povoado única e exclusivamente por seus filhos.



Vanda Ferreira

FAXINAÇÃO


Faxinação



             Minha mãe é visivelmente preocupada com limpeza. Limpeza da casa, da roupa, da comida. Mamãe fala de limpeza como se falasse de religião. Enaltece limpeza em diários discursos, empostando a voz e usando de expressão corporal para provocar, com excelência, sensibilização e convencimento aos seus entes familiares do dever e compromisso para com a adoção do costume quanto à higiene de um modo geral.



Mamãe é insistente com relação à limpeza porque a trata com uma importância vital. Porque em sua sabedoria trata de certo tipo de limpeza abrangente à belíssima condição de ser e estar.



A limpeza da qual mamãe prega é mais que uma limpeza de chão, de móveis, de utensílios e apetrechos. Ela ensina a importância de sermos limpos. Ela ensina a enxergar com olhos limpos. Ensina ter boca limpa, pensamento lavado. Ensina varrer o coração, escovar a carne e ventilar a alma.



Necessário faxinar os olhos, desfazer névoas que embusteiam a brancura do olhar, a transparência que favorece a leitura do bem, enxergar benevolências, declamar compaixão, declarar amor, proclamar preces de solidariedade.



Necessário despoluir, retirar o desprezível, reciclar certo lixo, poluição  vista no dia a dia, para enxergar as mensagens ocultas em entrelinhas de paisagens, de jardins, de movimentos que desfilam inescrupulosamente nas vias da vida. É necessário desentulhar o tapa-olhos para exibir luminosidade interior e promover leitura constante do slogan “Olhe para trás e siga em frente”.



Higiene bucal é mais que escovação dentária e uso de produtos dentífricos. Mamãe nos mostra um especialíssimo processo que higieniza o mal por meio de utilização de imaginário fio dental para descolagem de palavras negativas, destrutivas, agressivas. Boca suja profere maldições, fala com diabo... Boca limpa usa vocabulário doce, meigo, amoroso, generoso. Boca limpa fala com Deus.



O coração, por exemplo, é um tipo de ambiente público. Um tipo de órgão público, semelhante à mão que exige a aplicação de severos cuidados com abundância d’agua em contínuas lavagens para a retirada de possíveis germes a fim de evitar prováveis contaminações. Limpar o coração é preveni-lo de males contagiosos, tipo malquereres, ódios, desvelos egoísticos, malvadezas, e até mesmo fulminâncias que assassinariam a generosidade, a compaixão, o bem-querer e sentimento fraternal.



O pensamento é um poço infinitamente profundo. Um globo de paredes rugosas, cheias de esconderijos. Um ambiente que exige esperteza para o devido asseio. Limpar o pensamento exige a parceria do coração limpo, dos olhos limpos; da boca limpa. Assepsia é, verdadeiramente, o segredo da integridade individual para promover o bem global.



Evitar danos à integridade pessoal, comunitária e global é garantido com sistemático processo de limpeza individual. Hoje sei que devo limpar-me, desfazer de estrumes de meu banco de memórias.



Dedicadamente devo repetir o ciclo da faxina em mim. Limpeza tem a ver com paz. Limpeza é um fator fundamental para se estabelecer a paz. De forma que limpeza é uma questão de paz.



Eu exercito faxinas sistemáticas em mim.

Vanda Ferreira

sexta-feira, 13 de abril de 2012

HÁ PENAS

H Á  P E N A S



Histórias são feitas por relógios,

respiração, e sol e lua.



Histórias são escritas por desencontros,

ausências na elasticidade do tempo,

anéis sem pedra,

quadrados vazios,

rastros de olhares,

expansão de perfumes

eco de vozes.



Histórias são construidas de passado,

saudade esmaecida,

roupas velhas,

garrafas vazias,

parafina escorrida.



Promessas rasgadas,

esperança enterrada,

vale perdido,

sementes estéreis,

chuvas noturnas e flores secas fermentam histórias.



Vanda Ferreira

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Canção de paz


Canção de paz.


Sol deita no horizonte, semi-cerrados olhos sondam esmaecimento,

trocam desejos, roupagem do amarelo, do verde, do azul.

Maliciosa natureza embusteia trivialidade.

Há segredo, esconderijo de mapa, disfarce de trilhas dos passarinhos.


Encaixo-me feito raposa,

tecelagem mágica,

brechas de sabedoria;

Entardeço na repetição.


Canções ressoam,

vento escancara , nua garganta,

instantâneos flashs,


 louvores à paz.


Roteiro campestre,

estrada de terra,

caminho de luz.


Vanda Ferreira

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

VANDA FERREIRA: A BUGRA SARARÁ

Raquel, Ademar e eu.
Nossa história vem de longe, muito longe. Vez em quando nos encontramos e sempre é um acontecimento emocionante, uma festa particular em nossos corações.
Nosso penúltimo encontro foi no camping, o por-de-sol brindou nossos laços fraternos, nossas histórias, nossos destinos abençoados e nosso abraço carinhoso.
Tudo é muito íntimo, mas Raquel escreve tão lindamente que parece uma produção dos clássicos de literatura. Comovida opto por compartilhar com meus leitores.  

VANDA FERREIRA: A BUGRA SARARÁ


Raquel Naveira



Vanda Ferreira é bugra sarará. Tem sangue de índia do sul de Mato Grosso, mulher brava e aguerrida. Tem cabelos alourados, com mechas vermelhas. Um jeito ao mesmo tempo rude e doce de quem ama o seu rancho, o Dom Fernando, às margens do córrego Ceroula, na saída de Rochedo.

É nesse lugar que essa produtora de literatura, artes visuais e meio ambiente, sonha e desenvolve seus projetos: sente o grito da terra, que clama por preservação; observa o entardecer pantaneiro; luta pela construção de um recanto rural para convivência com a natureza e para uma roda de prosa sobre cultura, arte e educação.

Um teatro de arena projetado por um padre salesiano que primeiro habitou o local é palco ideal para o encontro entre Natureza e Poesia. Do ponto central, a voz reverbera cristalina pelo semicírculo das arquibancadas de cimento. O eco ressoa pelo ar, pelas pedras, pelas águas. Imagino a bugra Vanda e sua assistência: poetas, crianças, pássaros.

É nesse sítio, no silêncio e nas noites de inverno, que Vanda, a bugra, escreve seus livros, suas anotações poéticas e filosóficas, enquanto ferve o café, prepara o bolo de milho, depura o licor de jenipapo.

Presenteou-me com O Testamento, onde celebra o encontro amoroso, suprema realização afetiva, associado a uma idealização espiritual. Amor universal, forte e profundo. Atração carnal que se transforma em experiência quase esotérica, que liberta as forças secretas da natureza, tornando o amante um ser superior a si mesmo, quase divino. Vanda se vê como mulher metamorfoseada em mito, síntese perfeita de espírito e matéria, sexualidade e transcendência mística. Por isso utiliza palavras e expressões como “feitiço”, “outro reino”, “degustação com a visão”, “ritual mágico”, “imaginária cruz”, “campo do destino”, “profecia da emoção”, “lepra da tristeza”, “monte sagrado”, “mistérios ciganos”. Vanda, a bugra, “unta-se com as ervas santas, guardadas em seu cofre de memórias.” Amor que cria “dialeto próprio, fulcrado na gratidão” e no companheirismo. Compaixão: o último fruto do amor.

Em Passagens, Vanda abre o baú das recordações e lembra passagens de sua infância, como a das idosas que rezavam o terço feito de lágrimas de Nossa Senhora.

O pacto entre infância e natureza fica claro neste trecho: “...amar as árvores, a chuva, a lua, o sol e expressar gratidão por meio de zelo e respeito para com as minas d’água e a pureza da terra são votos de amor pela vida, que firmei ainda menina e que foram fielmente cumpridos”.

A voz do romance às vezes é de Vanda, na primeira pessoa, às vezes de Maria Joana, sua bisavó. Há alguns bons achados literários como a descrição do quarto da avó: espaço sagrado, cama de alta cabeceira, colcha de piquê branca, a janela com cortina de renda. E, de repente, a renda esgarçada, o tecido se desfazendo aos poucos numa “tecelagem de células mortas”. O tempo que tudo dilacera, desgasta, devora.

É verdade que Vanda, sempre poeta, tem dificuldade de soltar-se na narrativa. Acaba tingindo tudo de poesia, essa outra “camada de pele”.

Vanda, a bugra, crê que a realidade que cerca o poeta é a natureza. A paisagem campestre é uma espécie de espelho, onde ela vê refletida a sua cabeleira de fogo, ruiva e sarará.